Investir em dólar, sem comprar dólar: cotação perto de R$ 5,30 abre janela para ETFs, bonds, BDRs e exportadoras

Investir em dólar, sem comprar dólar: cotação perto de R$ 5,30 abre janela para ETFs, bonds, BDRs e exportadoras


Não há dúvida de que a queda do dólar para perto dos R$ 5,30 abre uma ótima oportunidade para a compra da moeda americana – seja para algum projeto específico, seja como um investimento mesmo. Mas aproveitar o momento favorável não significa apenas comprar a moeda ou aplicar em fundos que nela investem. Existem maneiras indiretas, e também eficientes, que permitem ao investidor ter exposição à divisa, como é o caso de BDRs, ETFs, bonds e ações de exportadoras na bolsa. São alternativas que unem o melhor dos mundos: diversificação com exposição a um ativo historicamente defensivo para as carteiras de investimento.

A moeda americana já caiu 13% contra o real neste ano. E, a julgar pelo cenário internacional, é possível que algum escorregão adicional vem pela frente. Mas quando se olha pro médio prazo, há muita coisa que pode interromper esse movimento de queda. É por isso que pensar em “dolarizar” uma parte da carteira entrou no radar de muitos investidores.

Uma das maneiras é por meio de ETFs. Aqui, o destaque é o IVVB11, o mais líquido entre todos os fundos de índice internacionais listados na B3 e que replica o desempenho do S&P 500 – índice das 500 maiores ações americanas -, sem hedge (proteção cambial). Ou seja, com variação cambial na veia.

As ações americanas, de fato, já subiram muito e muita gente defende que elas agora já estão caras. Ainda assim, mesmo uma alta modesta na renda variável dos EUA, ou até mesmo a estabilidade, qualquer ativo em dólar ganha valor caso a moeda americana suba. Então a matemática é simples: um avanço do dólar, ainda que pequeno, junto com uma alta, ainda que modesta, das ações dos EUA torna um simples ETF de S&P 500 uma excelente escolha. Em prazos maiores, então, nem se discute.

É exatamente isso que contam os dados históricos. O IVVB11 cai cerca de 2% neste ano porque capturou a alta do S&P 500 lá fora, de 11%, mas também a queda da dólar ante o real. Nem por isso deixou de ser uma ótima opção: já entregou um retorno de 15% em 12 meses e 61% em 24 meses. Nas janelas acima de 12 meses, o dólar não chegou a superar o Ibovespa todas as vezes, mas o IVVB11 sim, justamente pelo efeito combinado do câmbio com a renda variável. Claro que rentabilidade passada não é garantia para o futuro, mas olhar para ela é uma forma de entender o mecanismo desse instrumento.

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Comprando ações “gringas” sem sair do Brasil

Um outro jeito de se expor ao dólar é investindo em empresas estrangeiras. No mercado local, o investidor tem à disposição os BDRs. É o equivalente a negociar a ação americana no Brasil, tão simples quanto. E a grande jogada aqui é fazer o dever de casa básico: optar por companhias líderes em seus setores ou com negócios que só elas conseguem oferecer, além da óbvia entrega de lucros e receitas consistentes.

Como a bolsa americana pode estar passando por uma fase de preços caros, o investimento nos BDRs precisa ser feito para o longo prazo ou então via uma exposição um pouco mais diluída com outros ativos – que é o que próprio IVVB11 permite.

Fora isso, vale dar dois passos para trás no caso dos papéis que subiram muito nos últimos meses. É o caso do setor de tecnologia, cujas altas já começam a deixar os investidores inquietos. Não é como se o mundo estivesse perdido para Nvidia, por exemplo, mas uma “correção” do mercado não seria surpreendente a essa altura do campeonato.

Vamos para alguns exemplos. Os BDRs da Tesla (TSLA34), os mais negociados do mercado, acumulam queda no ano pelo aumento da forte concorrência com os carros chineses e com a leitura cada vez mais crescente de que houve euforia demais na esteira tema inteligência artificial. Quem investiu no BDR da Tesla já perdeu 23% com o “combo” dólar mais a ação. E, para frente, a situação não deve melhorar para a companhia, que enfrenta o ceticismo do mercado em vê-la como mais do que uma empresa de veículos, além dos desafios concorrenciais.

É uma situação totalmente diferente do Mercado Livre (MELI34), também um dos papéis mais negociados. Nesse caso, o investidor colheu a valorização na bolsa americana Nasdaq, mas perdeu o restante da alta por causa do dólar. O papel, porém, segue muito bem avaliado pelas áreas de pesquisas dos maiores bancos de investimento. O movimento dos concorrentes é uma pedra no sapato no curto prazo, mas os investimentos da empresa para continuar crescendo no e-commerce e na América Latina colocam a companhia em vantagem.

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Bonds, a diversificação na renda fixa internacional

O momento não poderia ser mais propício para investir na renda fixa lá fora: com a expectativa de que um primeiro corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano), muitas empresas, inclusive latino-americanas, foram a mercado emitir seus bonds. E esses papéis podem ser adquiridos pelo investidor brasileiro no mercado secundário.

É possível investir em títulos de dívida do governo americano (Treasuries), de outros governos, de empresas estrangeiras e empresas brasileiras. Todos eles são chamados de bonds. No caso desses produtos, a expectativa se repete: com a queda do dólar, abre-se a chance de entrar nos ativos a preço mais baixo.

No caminho ideal, o investidor pode ter bonds na carteira por meio de ETFs ou fundos tradicionais de renda fixa, como aqueles oferecidos por gestoras “gringas” especializadas no tema, caso da Oaktree e da Pimco. Investir diretamente só dá para fazer por meio de uma conta internacional.

No caso dos corporate bonds brasileiros, as emissões privadas, os retornos em dólar até tendem a ser maiores do que os de empresas americanas de rating semelhante, dado o risco maior. Mas aí entra o problema da diversificação geográfica, que continuada “confinada” no Brasil.

Também faz pouco sentido comprar bonds apenas de empresas brasileiras porque essas emissões não pagam necessariamente mais do que o CDI. Para as empresas, emitir bonds significa dívida mais barata; mas, para o investidor brasileiro, pode simplesmente não valer a pena a relação entre o risco de crédito, risco cambial e o retorno potencial. É, inclusive, o cenário atual, com a Selic elevada.

Finalmente, no caso da exposição ao governo americano, a despeito de toda a dúvida sobre a situação fiscal do país no atual governo, trata-se de investir no maior mercado – e na maior economia – do mundo. Sempre bem-vindo.

Saber escolher entre as alternativas globais, porém, não é tarefa simples para um investidor de varejo no Brasil. Daí a importância de contar com os fundos. Entre os ETFs, como mencionamos, vale considerar o BNDX11, que compra emissões de diversos países desenvolvidos sem contar os EUA, e o USDB11, que replica o mercado agregado de renda fixa dos EUA, entre títulos do governo e crédito corporativo de melhor qualidade (high grade).

Exportadoras, o jogo “dolarizado”, mas com a moeda local

Existe uma outra forma de trazer o efeito do dólar para a carteira sem sequer comprar ativos lastreados diretamente nele: o investimento em exportadoras. Esse talvez seja o modo menos óbvio dentre todos, porque aqui os riscos e cenários para as empresas é ainda mais evidente. Diferentemente dos BDRs, ETFs e bonds, a relação com o dólar não é necessariamente o fator determinante. Mas é, sem dúvida, um deles, então essa estratégia precisa entrar na nossa conta.

As empresas com exposição direta ao dólar na bolsa são aquelas ligadas às commodities, caso da Vale, da Petrobras e da Suzano, e também aquelas cujos negócios são dependentes do exterior, como a Embraer.

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Para as empresas de commodities, o resultado nasce de duas forças: o preço em dólar da matéria-prima e o câmbio. Se o dólar sobe e a commodity cai, o jogo fica praticamente no zero a zero Mas se ambos sobem, o ganho pode ser dupolo. Os custos em reais das empresas e os hedges (proteção cambial) colocam as empresas em menor ou maior exposição ao câmbio, mas o preço da ação, no fim das contas, é o que vai definir.



FonteInvest News