Porque a tarifa de 50% sobre a carne beneficia JBS e Marfrig – e pouco afeta a Minerva

Porque a tarifa de 50% sobre a carne beneficia JBS e Marfrig – e pouco afeta a Minerva


Antes de falar do Brasil, vamos lembrar de um oligopólio americano. Quatro frigoríficos concentram 80% do mercado nos EUA: JBS, Tyson Foods, Cargill e Marfrig.

Exato. Dos quatro grandes produtores de lá, dois são brasileiros. A dupla JBS-Marfrig abate, sozinha, uma a cada três cabeças de gado nos EUA. 

A empresa dos irmãos Batista, maior empresa de proteína animal do planeta, faz isso por meio da JBS Beef North America. A de Marcos Molina, via sua controlada nos EUA, a National Beef.

Olhando apenas para o universo dos frigoríficos brasileiros de capital aberto, então, temos que os dois maiores acabam beneficiados pela tarifa de 50%, que entrou em vigor no dia 7 de agosto: o faturamento de ambos com sua produção dentro dos EUA supera com uma folga o que eles ganham exportando do Brasil para lá – como vamos ver aqui.

O caso da Minerva, o outro grande produtor de carne bovina com ações na bolsa, é diferente. Ela não tem operações nos Estados Unidos – apenas exporta para lá. Mesmo assim, não é tão dependente da América do Norte quanto a estatística geral faz parecer.

A estatística geral: o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo. Os EUA, o segundo maior importador – atrás da China (quem mais?).

E a relação se repete quando olhamos só para o mercado da carne brasileira. No ano passado, o Brasil faturou US$ 12 bilhões com exportação desse ítem. A China foi responsável por 46,6% desse montante. Os EUA vêm em segundo, 10,5%

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A Minerva é a maior exportadora de carne bovina da América do Sul e, como dissemos, não abate gado nos EUA. Mas abate na Argentina, no Uruguai e no Paraguai – e boa parte do que ela fornece para os EUA já sai de lá. 

O balanço da empresa não especifica quanto. Mas num comunicado à CVM em julho, feito para explicar o quão vulnerável ela estava à nova tarifa, a Minerva afirmou o seguinte: nos últimos 12 meses, as vendas para os EUA representaram 16% do faturamento ali. Mas só 30% dessa fatia partiram do Brasil. 

No cômputo geral, então, a tarifa só teria como atingir 5% da receita – sem contar eventuais aumentos das exportações via Argentina, Uruguai e Paraguai. Das 38 plantas de carne bovina da Minerva, 15 ficam nesses países, e elas concentram 40% da capacidade de abate da companhia. Em tese, então, ela tem manga para diminuir ainda mais sua exposição à tarifa-monstro. 

E os casos da JBS e da Marfrig são ainda mais simples. Vamos a eles.   

JBS: de 1% a 3% da receita

O império dos Batista tem plantas nos EUA, no Brasil e na Austrália. Parte da produção brasileira e australiana vai para o mercado americano, naturalmente.

Em 2024, essas exportações para os Estados Unidos somaram US$ 3,2 bilhões. Dá R$ 17 bilhões pela cotação média do dólar no ano passado. 

O balanço da empresa não diz o que saiu do Brasil e o que saiu da Austrália. Vamos, então, para uma suposição absurda: a de que toda a carne tenha saído do Brasil. 

Pois bem. O faturamento global da JBS em 2024 foi de 423 bilhões. Numa realidade assim, apenas 4% da receita da companhia teria vindo das exportações de carne brasileira para os EUA. 

Mas, claro, a participação da Austrália aí é relevante. No balanço de 2024, a JBS salientou que o aumento das margens de lucro na operação australiana deveu-se “ao crescimento das exportações – especialmente para os EUA”. 

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Conclusão: as exportações com origem no Brasil correspondem a algo substancialmente menor do que 4% do faturamento global da JBS. A Fitch, agência de classificação de risco, estima algo entre 1% e 3%. É pouco – e deixa claro que a JBS se tornou, em grande parte, uma empresa americana.

Para dar uma ideia melhor do tamanho da operação gringa. Além da JBS Beef, o conglomerado também tem por lá JBS Pork e a Pilgrim ‘s Pride, de frango. Juntas, elas respondem por 65% do faturamento global. 

Um pedaço de 8,5% fica com a JBS Austrália. À parte brasileira resta, portanto, 27,5% – contando também a Seara, de aves suínos e processados, que praticamente não exporta para os EUA. 

Marfrig: menos de 1%

Na empresa de Marcos Molina, metade da receita vem dessa parte, a de aves, suínos, salsichas e cia, dado o tamanho da BRF lá dentro. Mas a dona da Sadia e da Perdigão também vende basicamente nada para os Estados Unidos.

O dinheiro de exportação dessa controlada da Marfrig vem do Oriente Médio, da Europa e da Ásia. Não há exposição às tarifas de Trump, portanto. E no mundo da carne bovina não é tão diferente. 

Contando só a parte de carne, 77% da receita da Marfrig vem direto da operação americana, com carcaças de bois americanos.

A parte das exportações? A Marfrig também não diz no balanço qual é o faturamento com as exportações de carne do Brasil para os EUA. No início de agosto, porém, ela abriu, tal como a Minerva: num comunicado à CVM sobre o efeito das tarifas. Disse que essa operação respondeu por apenas 0,18% do faturamento global no primeiro semestre de 2025. 

Ajuda o fato de a Marfrig também ter plantas no Uruguai e na Argentina. Juntas, elas têm capacidade para abater 4,8 mil cabeças por dia. É mais do que a operação brasileira, de 3 mil cabeças por dia.

Claro: se os frigoríficos de capital aberto estão numa situação relativamente confortável, não dá para dizer o mesmo dos que dependem de exportações para os EUA. 

Além de JBS, Marfrig e Minerva, outros 52 frigoríficos daqui têm autorização para exportar para os Estados Unidos. E uma parte considerável deles conta com o mercado americano para manter suas receitas – por mais que a China tenha conquinstado um protagonismo absurdo nos últimos 10 anos (veja abaixo). 

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Bom, num cenário de manutenção das tarifas essas empresas terão, obviamente, ou de buscar outros clientes ou de escoar sua produção no mercado interno – o que deve gerar um aumento de oferta (e redução no preço final ao consumidor); tudo isso ao menos num primeiro momento, enquanto os frigoríficos ajustam sua produção ao novo cenário.

O outro lado dessa moeda está no mercado interno dos EUA. Eles importam 20% da carne que consomem. Em 2024, o Brasil foi o terceiro maior fornecedor: 

1º) Austrália: 24%

2º) Canadá: 22%

3º) Brasil: 15%

4º) México: 13%

5º) Nova Zelândia: 12%

Ou seja: com 15% da carne importada dos EUA, o Brasil fechou o ano passado como responsável por 3% dos bifes consumidos pelos americanos.

A Austrália, nossa grande concorrente, está sob a menor tarifa-Trump possível, a de 10%. Acaba beneficiada, portanto. Por tabela, ótimo para a JBS, que exporta gado de lá do outro lado do mundo. 

O Canadá também seria uma alternativa óbvia para os importadores americanos, mas a carne deles também está praticamente embargada, com uma tarifa de 35%. 

No fim, o mais provável é que os americanos tenham de pagar mais caro pela carne produzida por lá mesmo, já que a tendência de qualquer medida protecionista é a de uma diminuição na oferta. Bom para as operações gringas da JBS e da Marfrig, ruim para o consumidor dos EUA – e para a economia do mundo todo. 



FonteInvest News