E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços

E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços


Se houver algum acordo com Trump por aqui, é extremamente provável que a coisa envolva tarifa zero para os Estados Unidos. No caso contra a União Europeia, bem menos turbulento e sem exigências políticas, os EUA impuseram, ainda assim, um placar duro: 15 X 0 – 15% de tarifa para os europeus; zero para os americanos. Difícil imaginar que aqui seria diferente. 

E o que mudaria se nossa tarifa para os importados dos EUA caísse a zero? É sobre esse recorte do imbróglio tarifário que vamos tratar aqui. 

Em termos de valor, 47% do que importamos dos EUA já não paga imposto de importação. Mais sobre esse assunto adiante, mas o fato é que esses não são bens de consumo – estamos falando em gasolina, diesel, gás natural, peças de aeronaves. 

Boa parte das coisas do dia a dia, tipo roupa, calçado, carro,  fica na tarifa máxima, de 35% (nota: aquela de 60%, mais presente nas nossas vidas, é para compras pessoais, pela internet; na importação comercial vale o teto do Mercosul, 35%).

thumbnail E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços

Vamos começar pelos automóveis. A Ford deixou de fabricar no Brasil. Hoje ela opera como uma importadora. O plot twist, para quem não acompanha o mercado automotivo, é que a maior parte dos carros dela vem do México e da Argentina

E aí a tarifa já é zero. Com o México, por conta de um acordo que isenta automóveis de imposto de importação; com a Argentina, por ela fazer parte do Mercosul. Ou seja: não muda nada no caso de modelos como o Bronco (feito no México) ou a Ranger (Argentina). 

Mas muda no caso do Mustang. Ele é fabricado nos EUA. E mesmo com o imposto cheio, vende bem no Brasil. O Mustang é o segundo esportivo premium mais vendido aqui, com 300 unidades no primeiro semestre de 2025 (20% desse mercado). O carro da Ford só perde para o Porsche 911 (444 unidades e 30% do mercado). 

Com o imposto de importação mais a jornada pelo nosso labirinto tarifário (IPI, PIS, Cofins…), ele chega às concessionárias por R$ 549 mil

Numa realidade sem o imposto de importação, e a mesma margem de revenda, o valor dele cairia para algo próximo de R$ 420 mil – um corte de quase 25% no preço final; R$ 132 mil a menos.

Veja aqui as contas, linha por linha: 

thumbnail E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços

Não dá para cravar uma porcentagem exata de “desconto” para todo tipo de produto, porque os impostos brasileiros são em cascata: o de importação entra para a base de cálculo do IPI, que varia de item para item, e os dois compõem a base do ICMS, que muda de Estado para Estado.

Aí é cada um no seu quadrado tributário. Mas faz sentido esperar algo perto de 25%, como no caso do Mustang.

Mas isso não significa que seríamos banhados por um tsunami de produtos mais baratos. Fabrica-se relativamente pouco nos EUA. O forte ali são os serviços; Google, Microsoft, Meta, Amazon e cia que o digam. O próprio exemplo da Ford deixa claro. Como qualquer montadora americana, ela mantém os escritórios centrais nos EUA e delega boa parte da produção a países com mão de obra mais barata e incentivos fiscais mais generosos.  

No mundo das roupas e calçados, idem, claro. Levi’s, Timberland, Nike e afins têm fábricas em vários países. Majoritariamente na Ásia, e algumas no Brasil mesmo (caso da Levi’s). Aí nada muda com uma tarifa zero para os Estados Unidos. Também seria difícil ver peças feitas nos Estados Unidos aportando por aqui. A Nike, por exemplo, tem alguma produção em seu país natal. Mas a demanda do mercado americano garante basicamente todas as vendas.    

Gasolina, diesel e gás

Agora, de volta às coisas que mais pesam na balança comercial EUA-Brasil, e que já são tarifa zero. O grosso são ítens de “segurança energética” – aqueles que o Brasil não pode ficar sem, sob a pena de instauração do caos: gasolina, diesel e gás, como dissemos. 

O Brasil é exportador líquido de Petróleo – vende mais do que consome. Poderia fazer parte da Opep+, se quisesse. Mas é ruim no refino. O tanto que as nossas refinarias produzem de gasolina e diesel não dão conta da demanda. 

Em 2024, 21% do diesel queimado nos caminhões e 6% da gasolina dos carros vieram do exterior. Os EUA venderam 3,6% do diesel consumido aqui e 0,5% da gasolina. Pouco – a Rússia se tornou o maior fornecedor do país (14% do diesel e 1,8% da gasolina dos nossos postos nasceram no país de Putin).

Levando em conta o acordo americano com a União Europeia, provavelmente entraria na mesa um aumento nas porcentagens americanas – a UE, afinal, se comprometeu a comprar centenas de bilhões de dólares em derivados de petróleo dos EUA para fechar seu acordo.

Muito mais relevante, de qualquer forma, é a participação dos EUA no gás natural. Dos 60 milhões de metros cúbicos por dia que o Brasil queimou em 2024 (nas termelétricas, fábricas e fogões), 5,1 milhões vieram dos EUA (8,5%).

AdobeStock_687381056-1024x575 E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços
Navio-tanque de GNL ancorado num terminal de gás. Foto: Adobe Stock Photo

O chato é que se trata da forma mais cara de gás natural, o liquefeito (GNL), que chega de navio. Precisamos dele porque a produção local e aquilo que chega via gasoduto, da Bolívia e da Argentina, não segura a demanda. 

Há vários projetos para diminuir nossa dependência de GNL importado – como produzir mais biometano (o gás natural renovável) e construir mais gasodutos para trazer gás da Argentina (que só começou a exportar recentemente).

Um eventual acordo com os EUA pode atrapalhar esses planos, já que provavelmente envolveria cotas de importação de GNL (igual aconteceu no caso da União Europeia).

thumbnail E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços

O déficit na aviação

Olhando para a tabela de exportações dos EUA, o outro ítem que grita depois de combustíveis é o de aeronaves. Foram US$ 8 bilhões em exportações de aviões e peças aeronáutica para o Brasil, com tarifa zero.

Trata-se de uma regra universal: a praxe dos países é não cobrar impostos nessa área. Até porque a produção de qualquer aeronave precisa de um enorme vai e vem de peças e partes de fuselagem. 

Embraer_AdobeStock_489289000_Editorial_Use_Only-copy-1024x576 E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços
E175, o best seller da Embraer nos EUA. Foto: Adobe Stock

Por exemplo: das exportações americanas para o Brasil nesse setor, estão motores da GE e da Pratt & Whitney que vão nos aviões da Embraer – aeronaves que, em grande parte, rumam para o mercado americano. 

Por outro lado, como você pode ver na tabela abaixo, o tanto que mandamos para os Estados Unidos em aviões e peças deu só US$ 2,7 bilhões no ano passado. Veja aqui: 

thumbnail E se Trump exigir tarifa zero para os produtos americanos no Brasil? Veja como ficariam os preços

Ou seja, o déficit aí é enorme, mesmo com a Embraer sendo tão bem-sucedida em exportações. Mais uma evidência de que não há razão econômica para a imposição das tarifas.

E o restante da tabela conta a história sozinho. Café, celulose, carne, açúcar, aço… Uma tarifa geral de 50% arrasaria os negócios que sempre exportaram para os EUA pagando pouca ou nenhuma tarifa.

Agora é ver o que nos aguarda do dia 1º de agosto em diante. 



FonteInvest News