O Brasil na mira de Trump: a nova onda de incertezas para balançar o dólar

O Brasil na mira de Trump: a nova onda de incertezas para balançar o dólar


Depois de ficar fora do foco do presidente dos EUA, Donald Trump, no “tarifaço” aplicado contra mais de uma centena de países no começo do ano, chegou a hora do Brasil entrar na mira. Desde que o governo Lula começou a trocar farpas com o republicano, as incertezas sobre os efeitos para a economia só cresceram. O resultado? Uma alta de 2,2% para o dólar em pouco mais de dez pregões.

Não é como se tudo estivesse perdido. O dólar acumula uma desvalorização de quase 10% no ano frente ao real e uma série de fatores explica esse movimento (falaremos a respeito adiante). Mas o medo de uma escalada nos conflitos políticos e comerciais já é suficiente para fazer os investidores buscarem refúgio em moeda forte – o que, no caso, significa comprar mais dólares.

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Alguns números servem como bom termômetro para mostrar esse movimento. Dados do fluxo cambial do Banco Central – espécie de livro contábil das entradas e saídas de dólares do país – revelam que, entre os dias 7 e 11 de julho, deixou o país um total de US$ 1,65 bilhão pela conta financeira. Nessa conta, estão registrados os serviços e transferências de renda e capitais, como viagens, seguros, juros de empréstimos, lucros e dividendos. É aí também que estão registrados investimentos em carteira, como ações e títulos, empréstimos externos de bancos e empresas e outras operações dessa natureza.

Já a conta comercial, que reúne as operações de importação e exportação, teve entrada líquida de US$ 2,29 bilhões no mesmo período.

É o fluxo financeiro que captura o “humor” do mercado. Afinal, quando a demanda por ativos de risco aumenta, a tendência é que mais recursos entrem no Brasil. Se a percepção do investidor piora, o que se vê é uma saída de dinheiro – exatamente como os dados mostram. O fluxo comercial, por outro lado, responde a aspectos da economia real, como a demanda dos importadores e sazonalidade das exportações, por exemplo.

O movimento de capital estrangeiro nas ações brasileiras também ajuda a desenhar o cenário atual para o mercado financeiro. Segundo a B3, os estrangeiros retiraram R$ 868 milhões das ações no dia 18 de julho – o nono dia seguido de saques. No mês, as saídas já somam R$ 5,9 bilhões.

Vamos aos fatos. Para a maioria dos economistas e participantes do mercado, o impacto real da sobretaxa de Trump sobre o Brasil é limitado. Isso porque menos de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro depende do mercado americano. Alguns pólos, como Minas Gerais, onde está a produção siderúrgica do país, podem sofrer mais com alíquotas mais altas, mas a visão geral é de que os efeitos para a economia seriam mais tímidos.

O problema é que, no mercado financeiro, a incerteza também tem um preço. Na ordem do dia, é hora de adotar cautela, reequilibrar os portfólios para ter menos exposição a ativos de risco e esperar a poeira abaixar – ao menos até o dia 1° de agosto, quando a tal tarifa de 50% começa para valer.

E isso sem falar nas possíveis retaliações – ou mesmo mais bate-boca – que o governo brasileiro pode adotar contra os americanos no meio do caminho, uma batalha que poderia colocar a atividade local em uma situação mais vulnerável.

A maioria das pessoas ouvidas pelo InvestNews concordam que a volatilidade deve seguir em alta na queda de braço entre Brasil e EUA. Mas todos também acreditam que o caminho do governo brasileiro será o diálogo, assim como se viu nos embates dos EUA contra outros países, como Canadá e mesmo a China.

O que ainda joga a favor da moeda brasileira é a tendência do dólar globalmente. Desde o começo deste ano, quando a chegada de Trump à Casa Branca bagunçou o xadrez global, a visão de interlocutores do mercado é de que a própria economia americana poderia perder força na briga tarifária contra outros países.

Em meio a tudo isso, o dólar vem perdendo espaço não apenas para o real, mas em vários outros mercados, como Colômbia, México e Chile. E o índice DXY, que mede o desempenho contra uma cesta de moedas fortes – euro, iene, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço – também perde força: a baixa até agora é de 9,4%.



FonteInvest News